09/12/2016 4:30 Caminho das notas Imergir em uma ópera é experiência incomparável Se você implica com a duração das óperas, tem nobre companhia. Existe uma gravação de 1956 em que o maestro Sir Thomas Beecham lembra uma conversa com o rei George V, falecido 20 anos antes. Eles falavam sobre ?La Bohème?, de Puccini, ópera que o músico tinha como uma de suas três favoritas. ?Também era a favorita dele?, conta Beecham, num sotaque cômico de tão empostado. ?Quando tive coragem de perguntar a razão de sua preferência, ele disse: ?É a mais curta que conheço?.

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E eu também tive coragem de dizer-lhe: ?Não pode haver melhor razão que essa, senhor!?.?

Uma récita de ?La Bohème? leva menos de duas horas.

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Existem óperas mais curtas, apesar de a duração sempre ter sido uma questão. Antes de Wagner apagar as luzes na plateia, esconder a orquestra no fosso e suprimir intervalos, o público italiano do século XVIII bebia, comia, jogava cartas, conversava, passeava pelos corredores dos teatros, fornicava atrás das venezianas dos camarotes e, de vez em quando, até prestava atenção no palco.

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Ou seja, a experiência de ?ir à ópera? era bastante diversa da concentração exigida hoje em dia, embora sobreviva um quê de mundanidade.

Como forma de entretenimento popular, a ópera passou o bastão ao cinema no começo do século XX.

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A última peça a cair no gosto do grande público, ?Turandot?, também de Puccini, estreou em 1926. O primeiro filme falado, ?O cantor de jazz?, de Alan Crosland, estreou em 1927. Essa sincronia não pode ser desconsiderada. O cinema mais comercial enfrenta as mesmas dificuldades que a ópera numa sociedade com déficit de atenção.

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Então, tome ação ininterrupta e efeitos especiais para segurar um espectador acostumado a zapear ou a fazer uma pausa para o pipi ou para a boquinha.

Imergir em uma ópera é experiência incomparável, ainda mais transcendente em meio à correria contemporânea.

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Só que é raro alguém pegar essa boa febre com a obra completa em disco (récitas são muito mais eficientes, mas a crise econômica do Estado do Rio dificulta ou impede o Municipal de estrear produções).

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Por sorte, excertos de óperas, sobretudo árias, nas quais tenor ou soprano cantam sozinhos, confundem-se com o início da indústria fonográfica, em rolos ou bolachões de goma-laca.

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Depois, com LPs de vinil ou CDs, apareceram coleções de excertos. Sempre que me pedem dicas para entrar no mundo da ópera, e um amigo fez isso na semana passada, eu as recomendo.

Apesar de a quantidade de lançamentos de álbuns de música clássica não ter sofrido alteração notável com a crise da indústria fonográfica, quase nada é lançado no Brasil.

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Talvez na presunção equivocada de que quem gosta do gênero necessariamente tem dinheiro para viajar ou para mandar virem cópias importadas.

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Porém, saiu aqui, pela Universal Music, representante do selo alemão Deutsche Grammophon, um disco intitulado ?Verismo?, no qual a soprano russa Anna Netrebko canta essa escola italiana, escola que buscava enredos e emoções mais realistas e intensas que o rocambolesco tradicional.

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O CD foi minha primeira indicação ao amigo que queria ouvir ópera.

Vários elementos recomendam ?Verismo? além do lançamento nacional, a começar pelo próprio Deutsche Grammophon, que não dá ponto sem nó.

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Netrebko, hoje com 45 anos, é uma cantora de técnica vocal perfeita (e de grande beleza física, sem ser uma supermodelo esquálida).

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Sua história constitui uma espécie de Gata Borralheira lírica: enquanto estudava no conservatório de São Petersburgo, ela trabalhava como faxineira no Teatro Mariinsky.

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A orquestra que a acompanha é a Accademia Nazionale di Santa Cecilia, hoje a melhor da Itália. O ótimo maestro é um inglês de origem italiana, Sir Antonio Pappano, diretor musical da Royal Opera House, de Londres.

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Na revista inglesa ?Gramophone?, o resenhista fez objeções a ?Verismo?, sendo as principais a de que nem todos os compositores presentes pertencem à escola (o próprio Puccini, cujo nome aparece seis vezes na contracapa, tinha lá suas diferenças com a turma) e a de que Netrebko parece fria em muitos momentos (porque, conjectura-se, jamais cantou nenhuma dessas óperas no palco, exceto ?Manon Lescaut?, de Puccini, sempre ele).

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Entendo as objeções, mas penso que, dadas as observações do parágrafo anterior, o saldo é positivo o bastante para se escutar o CD.

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Tanto o ouvinte curioso quanto o habitual têm nele uma coleção de grandes árias para soprano, como ?La mamma morta?, da ópera ?Andrea Chénier?, de Giordano, e ?L?altra notte in fondo al mare?, da ópera ?Mefistofele?, de Boito, colaborador do velho Verdi.

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Com Mozart e Wagner, Verdi é superior a qualquer compositor no ?Verismo? de Netrebko, seja de fato verista ou não.

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No entanto, Puccini é capaz de incendiar corações e ouvidos, graças ao gênio para casar sentimento e música em árias concisas, qual um artesão pop.

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Suas ?Un bel dì vedremo? (de ?Madama Butterfly?) e ?Vissi d?arte, vissi d?amore? (de ?Tosca?) não devem nada nem a Verdi nem a Sir Paul McCartney.

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