No ano passado foram os hackers que provocaram uma monumental fuga de informação em que se revelaram os dados pessoais de 37 milhões de utilizadores do site em todo o Mundo. Agora, têm à perna a Comissão Federal do Comércio (FTC) dos Estados Unidos, conforme admitiram, esta semana, os executivos que têm entre mãos a missão de recuperar a credibilidade de uma empresa que, paradoxalmente, promove a traição. Rob Segal e James Millership admitiram, em entrevista à Reuters, a investigação à Ashley Madison, mas dizem desconhecer o que pretende a entidade que também zela pela defesa do consumidor norte-americano e investiga casos de propaganda enganosa, nomeadamente aqueles em que os consumidores são induzidos a pensar que os seus dados estão fechados a sete chaves.

O ‘assalto’ informático ao Ashley Madison, que expôs dados pessoais de milhões de utilizadores inscritos no site de encontros, custou à empresa Avid Media Life mais de um quarto de sua receita, admitiram Segal e Millership. “Lamentamos profundamente”, acrescentou Segal, que até disse que a empresa talvez pudesse ter gasto mais dinheiro em segurança informática. Estes dois executivos foram contratados em abril último, no âmbito do investimento de milhões de dólares que a dona do Ashley Madison, a Avid Media Life, está a fazer para recuperar a reputação do site, que garantia infidelidade com a máxima discrição.

Mas a reputação da Ashley não é o único problema da Avid Media Life, que enfrenta ações judiciais coletivas nos EUA e no Canadá em nome de clientes cujas informações pessoais foram publicadas ou que alegam ter sido enganados por falsas amantes virtuais. É uma questão de números: a relação dos utilizados do sexo masculino e do feminino foi sempre de cinco para um. Um relatório da Ernst & Young encomendado pela Avid e apresentado esta semana à agência Reuters confirmou que a empresa usou programas de computador para criar perfis femininos falsos, engodos que ampliavam as conversas com clientes masculinos pagantes. Os utilizadores do site que diz que a ‘vida é curta’ e incentiva a que se ‘tenha um caso’ pagam à conversa – quanto mais conversa com diferentes perfis, mais pagam.

A Avid encerrou primeiro perfis falsos nos EUA, no Canadá e na Austrália, e depois no resto do Mundo, mas alguns americanos foram ainda enganados por mensagens de perfis estrangeiros inventados até ao final de 2015, segundo o relatório.

A JORNALISTA

Na realidade, quem levantou primeiro a lebre foi a jornalista Annalee Newitz, do site Gizmodo, que cruzou dados do Ashley Madison pirateados e chegou à incrível conclusão de que os milhões de homens que usavam o site de infidelidades estavam a falar com mulheres que não eram reais. Os funcionários da Ashley Madison – concluiu a jornalista – criavam e mantinham contas falsas de mulheres. A investigação de Annalee Newitz concluiu que a maioria dos perfis falsos correspondia a imagens de mulheres geradas por computador. Em mais de 70 mil casos, pelas contas do Gizmodo.

Nos emails que foram divulgados, faz-se referência aos Ashley’s Angels (os anjos de Ashley), o nome dado aos autores destes perfis falsos, que criavam as mulheres de faz-de-conta e davam conversa a homens em todo o Mundo. Até em Portugal, onde existiam 120 mil membros em 2015: “O Keith precisa de ajuda da equipa do Carlos” para criar uma mulher para o português, leu-se num dos emails divulgados.

De acordo com o Gizmodo, os homens no Ashley pagavam gato por lebre. Pagavam por uma fantasia e não por encontros extraconjugais online. A dar conversa, no outro lado, estava afinal um funcionário.

Na entrevista desta semana à Reuters, a nova administração do site de infidelidade pediu desculpa pelo escândalo, que só rebentou quando foram despejados na internet cerca de 9,7 gigabytes de informação, o que fez cair o então CEO, Noel Biderman, que se autointitulava de ‘rei da infidelidade’. Em 2015, quando saiu, os lucros da empresa andavam nos 98 milhões de euros – este ano deverão ficar pelos 72.

Em agosto de 2015, hackers divulgaram dois pacotes com informações dos utilizadores. O primeiro tinha quase 10 GB e o segundo 13 GB. Após uma primeira divulgação de milhões de endereços de email e outros dados pessoais, a segunda sequência continha arquivos e mensagens internas da empresa. Pior, era impensável. Um dos primeiros a admitir ter sido vítima foi o apresentador americano de televisão Josh Duggar, conhecido defensor da família tradicional, que foi obrigado a reconhecer que era utilizador do Ashley Madison, após ter aparecido no site de informações Gawker. “Fui o maior hipócrita da história”, disse Duggar, ex-diretor do grupo Family Research Council (Conselho de Investigação da Família). Nos Estados Unidos, o assunto foi diretamente ao Pentágono, que se adiantou para saber se membros das Forças Armadas eram clientes.

“Temos a certeza de que a marca pode ser reposicionada”, diz Rob Segal. Millership garante que têm 45 milhões de euros para gastar em aquisições e parcerias, agora com sites “discretos de encontros”.

 

BIDERMAN: O PRIMEIRO A SAIR DE ‘CASA’

 

Nascido em 1971, em Toronto, no Canadá, Noel Biderman foi a grande baixa do escândalo da fuga de informação. O CEO da Avid Life Media e chefe executivo do Ashley Madison demitiu-se na sequência do ataque dos hackers no qual foi revelado também, numa troca de emails entre executivos, que a empresa preparava uma aplicação para smartphone chamada ‘Quanto vale a sua mulher’, em que os utilizadores podiam criar perfis das suas respetivas mulheres para as submeterem à avaliação de outros utilizadores.

© Sarkis Mohsen Yammine

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