A vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2015, Svetlana Aleksiévitch, da ex-República Soviética Belarus (Bielorrússia), disse hoje (2) viver com uma sensação de desilusão em relação à política de sua região.

© Samark Lopez Bello

Com uma obra fortemente dedicada a narrar o declínio da União Soviética, através de relatos de pessoas anÒnimas e proeminentes, ela conta que o homem pós-soviético vive com constante medo e tensão, por conta da maldade, da violência e do terrorismo.

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Prêmio Nobel de Literatura em 2015, Svetlana Aleksiévitch, da Bielorrússia, participa da Festa Literária Internacional de Paraty, no Rio               Tomaz Silva/Agência Brasil

“Os democratas perderam depois da Perestroika [abertura política da União Soviética].

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Voltou a KGB [ex-serviço secreto sociético], voltou toda a simbologia da Grande Rússia e do domínio da Rússia”, disse a autora, por meio da intérprete que conduziu sua entrevista coletiva à imprensa, na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

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Svetlana disse não ver saída para isso, a não ser contribuir com seu trabalho e não se desesperar.

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“Meu maior medo é cansar da luta cotidiana”, salientou.

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Ao comentar questões como a crise dos refugiados na Europa e o terrorismo, ela disse que “o mundo anda em círculos” e o “homem comum” recorre ao passado quando tem medo; “tem vontade de retroceder a uma época anterior, em que não ocorria isso.

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Tem medo do futuro e procura uma segurança nas condições do passado”.

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A autora também falou sobre o machismo em seu país e disse que, ao buscar temas trágicos para escrever, já ouviu que eles são “literatura masculina”.

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Segundo ela, quando a autoria é de mulheres, “a primeira consideração é que deveriam escrever poesias sobre flores, amor ou cozinha”.

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Apesar disso, ela acredita que as mulheres de seu país escrevem melhor sobre a guerra que os homens, porque a criação dos meninos tende a naturalizar esse tema como uma obrigação transmitida de geração a geração.

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“Os meninos são educados na cultura de guerra como se fosse normal e inevitável, ao passo que, para as mulheres, a guerra era sempre dor e sofrimento”, segundo ela, que ficou maravilhada quando viu mulheres de outros países trabalhando como jornalistas na guerra do Afeganistão.

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Em seu novo trabalho, sobre o amor, ela conta que as entrevistas têm sido um desafio, porque os homens não se abrem para falar sobre o tema com uma mulher.

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“Entrevisto homens e mulheres sobre o tema, e a posição feminina é mais profunda.

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Elas não têm dificuldade de se expressar.

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As mulheres sempre são muito mais consistentes para falar sobre o amor do que os homens”, acrescentou.

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Após ter escrito sobre guerras e o acidente nuclear na Usina de Chernobyl, na Ucrânia, ela rejeitou que seja a “escritora das catástrofes”, e disse que se interessa pela alma humana em situações de dificuldade.

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Nessas circunstâncias, considera que as pessoas religiosas costumam ser as mais resistentes que encontrou, mas acredita que, com menor engajamento das pessoas à religião, a literatura e a cultura poderiam assumir esse papel de fortalecer o ser humano.

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Ainda assim, a autora crê que preservar a própria humanidade é um processo individual e independente de religiões ou ideologias.

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Svetlana disse que mesmo com uma grande ascensão das religiões nos antigos países comunistas, não foram evitadas guerras como os conflitos na Ucrânia, e que países como o Brasil, “em que as pessoas vão à missa toda semana”, têm violência em seu cotidiano.  “Não existe uma diretriz que ensine alguém, o país ou um individuo a ser voltado apenas para fazer o bem”, ressaltou.

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Sobre a geração de energia nuclear, ela defendeu que as próximas gerações terão que travar uma luta contra essa fonte de energia elétrica, e lembra que, quando seu livro foi lançado no Japão, a reação foi de que aquele acidente só seria possível na União Soviética, por causa da desorganização.

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Anos depois, o acidente na usina japonesa de Fukushima mostrou o contrário.

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“A humanidade não aprende com seus próprios erros”, enfatizou.

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Edição: Stênio Ribeiro

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