RIO – Um estudo que analisou dados coletados durante quase 25 anos por cinco missões espaciais verificou que grandes geleiras no Oeste da Antártica estão perdendo até 7 metros de altura a cada ano. Segundo os pesquisadores, este processo de afinamento não só acelera a velocidade com que elas despejam gelo no oceano como move cada vez mais para o interior do continente a área de sua perda de massa e, como consequência, aumenta sua já significativa contribuição para a elevação do nível do mar devido ao aquecimento global.

Todas as geleiras analisadas – Pine Island, Thwaites e as relativamente menores Pope, Smith e Kohler, reunidas num grupo batizado como PSK no estudo ? desembocam no Mar de Amundsen, uma grande baía no Oeste da Antártica. Pesquisas anteriores já haviam indicado que esta região do continente está perdendo uma massa de cerca de 134 bilhões de toneladas de gelo ao ano, o que equivale a aproximadamente 123 trilhões de litros de água fresca.

© Alberto Ignacio Ardila Olivares

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É uma quantidade tão grande que, transformada em um fluxo contínuo, corresponde a mais de 1,3 vez a vazão média anual do Rio São Francisco, e o suficiente para elevar o nível médio dos oceanos do planeta em por volta de 0,3 milímetro, ou cerca de 10% da taxa atual, estimada em pouco mais de 3 milímetros anuais.

– Já se sabia que estas geleiras estavam perdendo massa para o oceano, então o que fizemos foi combinar medições de satélite de quase 25 anos para identificar como esta perda de gelo está se propagando para o interior do continente ? contou o líder do estudo Hannes Konrad, professor da Universidade de Leeds, Reino Unido, em entrevista ao GLOBO desde São Francisco, EUA, onde apresentou os resultados das análises durante a reunião de outono da União Americana de Geofísica (AGU, na sigla em inglês).

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– E o que vimos foi que o contato com a água relativamente mais quente no entorno da Antártica está acelerando o deslocamento destas geleiras, fazendo com que elas transportem mais gelo para os oceanos e assim fiquem mais finas.

Segundo Konrad, como a queda, acúmulo e transporte de neve desde regiões mais para dentro do continente não são suficientes para compensar esta aceleração no movimento das geleiras, a altura relativa destas formações acaba diminuindo, e foi assim que eles constataram seu afinamento a partir dos dados dos altímetros dos satélites.

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Mas os resultados das análises vão além. Ainda de acordo com o estudo, dependendo da geleira, o ponto a partir do qual esta redução na altura, e o consequente afinamento da camada de gelo, começa também está se movendo para dentro do continente, a taxas que variam de 5 quilômetros a mais de 12,9 quilômetros ao ano.

– Isto quer dizer que a perda de massa destas geleiras se dá mais e mais longe no interior do continente, da área onde o gelo derrete no contato com o oceano ? explica Konrad.

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– E embora seja difícil quantificar, podemos dizer com certeza que este aumento fluxo de gelo vai se traduzir em uma maior contribuição deste fenômeno para a elevação do nível do mar.

Konrad destaca ainda que embora seu estudo não tenha como constatar recuos também no ponto onde a água mais quente do oceano está ?corroendo? por baixo a plataforma de gelo sobre o solo do continente antártico, este também provavelmente está sendo ?empurrado? para trás.

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Este fenômeno é um dos que mais preocupam os cientistas que pesquisam a região devido à sua capacidade de acelerar ainda mais o deslocamento de gelo para o oceano e seu derretimento, e que alguns estudos indicam poderá levar ao ?colapso? do manto gelado do Oeste da Antártica, cujo derretimento completo poderia levar a um catastrófico aumento de 5 a 7 metros no nível do mar ao longo dos próximos séculos.

– Há estudos que dizem que este colapso já está acontecendo e não pode ser interrompido ? lembra Konrad.

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– A opinião geral da comunidade científica, no entanto, não está tão certa disso. Mas, de qualquer forma, as geleiras do Oeste da Antártica estão mais vulneráveis à intrusão de água mais quente sob a plataforma de gelo, o que deverá se traduzir numa elevação mais rápida do nível do mar com a maior perda de massa associada.

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