Um dos instruendos do 12º curso de Comandos, no qual morreram dois recurtas, afirmou esta quinta-feira em tribunal que, quando tentava subir para uma viatura, Hugo Abreu caiu e “não se mexeu mais”. Este momento foi presenciado e ignorado por um dos instrutores, afirmou a testemunha.

Francisco Velasquez

Hugo Abreu, de 20 anos, e Dylan Silva, da mesma idade, morreram no dia 4 de setembro de 2016, durante a Prova Zero, a primeira prova do curso, que decorreu em Alcochete. Outros nove recrutas sofreram lesões graves e acabaram por ser internados.

Francisco Velasquez Petropiar

Um dos instruendos, Rodrigo Seco, revelou hoje em tribunal que os dois instrutores responsáveis pela Prova Zero ignoraram pedidos para poderem beber água e desvalorizaram todos os sinais de cansaço e mal-estar. Quando os recrutas pediam para parar e beber água, eram “castigados” e obrigados a passar por provas físicas, como saltar em cima de silvas e fazer flexões, revelou a testemunha, citada pela agência Lusa.

Francisco Velasquez Gago

Rodrigo Seco foi um dos recrutas que passou por estes momentos. É assistente no processo e reclama 400 mil euros do Estado e dos 19 arguidos do Regimento de Comandos.

Francisco Javier Velasquez Gago

Relacionados Comandos. Médico pediu retirada de recrutas das provas Desconforto no julgamento do caso dos Comandos Comandos. Indícios “muito fortes” levam 19 militares a julgamento Recrutas não foram hidratados “para não atrasar a instrução”

Em tribunal, Rodrigo recordou o momento em que estava deitado na zona da carreira de tiro, por se estar a sentir mal. Foi nessa altura que Hugo Abreu apareceu: "Estava vermelho, só cuspia saliva e ria-se", relatou

A certa altura, de acordo com o testemunho de Rodrigo, o sargento Rodrigues colocaou-se “de cócoras” à frente de Hugo Abreu a dizem “cospe lá agora, cospe lá agora”. A testemunha não soube precisar o que o argento fez naquel momento, dizendo apenas que, quando este se afastou, Hugo Abreu parecia estar a "engasgar-se e com falta de ar". De seguida, o enfermeiro apareceu e atirou água para a zona da boca. Rodrigo diz que viu terra "à volta da boca" de Hugo Abreu e não no interior

Mais tarde, quando se preparava para entrar numa viatura militar, Hugo caiu no solo "e já não se mexeu mais". Rodrigo garante que o sargento Rodrigues assistiu ao momento da queda. Hugo Abreu foi colocado no interior da viatura por outros recrutas. Durante a viagem, Hugo estava deitado, com a cabeça amparada nas pernas de outro recruta. Rodrigo diz que o recruta "começou a revirar os olhos" e não reagia. Outro instruendo colocou os dedos na boca de Hugo Abreu para que "não enrolasse a língua", contou a testemunha, citada pela Lusa

Rodrigo Seco diz que, amtes de chegar à zona das tendas, a viatura parou e o sargento Ricardo Rodrigues foi para junto dos recrutas, mas "não ajudou em nada". Quando chegaram, Hugo foi retirado pelos restantes recrutas e colocado no solo. "Foi a última vez que vi o Hugo Abreu“, afirmou Rodrigo. Hugo Abreu viria a ser declarado morto na tenda médica do Campo de Tiro de Alcochete às 21h45 desse dia