17/04/2017 4:30 Enquanto a terra treme A ideia de não existir desde sempre me horroriza mais que deixar de existir O meu filho Carlos tinha quatro ou cinco anos quando assistiu pela primeira vez a um vídeo do meu casamento. Durante alguns minutos acompanhou as imagens com grande atenção. Riu-se, divertido, ao reconhecer os primos, os tios, os amigos da família. A determinada altura, porém, fez um grande silêncio. Chamou-me:

?Papi, onde estou eu, nessa festa??

?Não estás??

?Não estou?? ? Todo ele era indignação.

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? ?Então vocês casaram e não convidaram o próprio filho?!?

Disse-lhe que naquela altura ele ainda não existia.

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Foi o pior que lhe podia ter dito. Olhou-me, mais do que indignado, horrorizado:

?Não existia?! Como não existia? Eu existo desde sempre.?

Partilho a indignação do meu filho.

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A ideia de não existir desde sempre horroriza-me ainda mais do que a de deixar de existir um dia. Pior do que deixar de existir é não ter existido a eternidade inteira, ou quase inteira, o que, aliás, significa o mesmo.

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Então o universo está em festa há milhões de anos, estrelas pipocando no espaço infinito, mundos se formando, a Terra ganhando vida, o primeiro homem abrindo os olhos na África, provavelmente em Angola, acredito até que no Huambo, lá, onde hoje fica o quintal da casa onde também eu nasci e fui criado ? e só me convidaram agora?

Não vi Nefertiti, a Senhora do Alto e do Baixo Egito, a Rainha de Todas as Mulheres, a Amada pelo Amor, bailando junto ao Nilo.

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Não vi Nabucodonosor passeando ao entardecer nos jardins suspensos da Babilônia nem, já velho, vítima de licantropia, espumando e uivando como um lobo à lua cheia.

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Não vi Qin Shi Huang, o primeiro imperador da China, caminhando sobre aquela que haveria de ser a Grande Muralha.

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Não vi a Rainha Ginga desfilando, vestida como um homem, entre o seu harém de mais de 50 homens, os quais vestia como se fossem mulheres.

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Não vi Zumbi governando o Quilombo dos Palmares. Não tive a oportunidade de conversar com Eça de Queirós, sentados os dois a uma mesa do Café La Columnata Egipciana, em Havana, onde ele escreveu alguns dos primeiros contos.

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Não viajei no Zeppelin. Não escutei Louis Armstrong tocando trompete nas ruas de Nova Orleans. Não vi o espanto dos franceses diante da música de Pixinguinha e dos 8 Batutas, em Paris, em 1922 (difícil entender como ainda nenhum escritor brasileiro romanceou esta viagem; nenhum cineasta se interessou por ela).

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Penso, à laia de consolação, que me calhou um tempo curioso: assisti ao momento em que Armstrong (não o do trompete, o outro, Neil), afundou o pé na poeira lunar, enquanto pronunciava uma frase que ensaiara, na Terra, dezenas de vezes: ?Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a Humanidade?.

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Acompanhei de longe, através das páginas da revista ?Paris Match?, que a minha mãe assinava, a explosão festiva do Maio de 1968.

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E, embora fosse muito novo, lembro-me até hoje dos trocistas olhos azuis de Daniel Cohn-Bendit presos aos olhos assustados de um polícia.

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Testemunhei a independência de Angola e dos restantes países africanos de língua portuguesa e estava na Grand Parade, na Cidade do Cabo, em 1994, quando Nelson Mandela discursou, festejando o fim do apartheid e a fundação de uma nova África do Sul.

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Testemunhei também o colapso de muitos sonhos, inclusive, em certa medida, o daquela África do Sul, a Nação-do-Arco-Íris, que Mandela tentou fundar.

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Os rápidos dias de hoje parecem-me ainda mais interessantes. Mais inquietantes também. Atravessamos uma zona de turbulência, e não adianta procurar o cinto de segurança nas cadeiras, porque não há cinto, nem cadeiras e nem é certo que exista um piloto no cockpit.

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Vivemos em plena tempestade, num tempo perigoso e volátil. Adormecemos e, quando despertamos, o mundo é já outro:

?Leste os jornais? Prenderam mais um corrupto!?

?E o presidente?! Não prenderam o presidente??

Em Angola ainda não.

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Na Venezuela ainda não. Na África do Sul ainda não. No Brasil também ainda não (pelo menos até ao momento em que escrevo esta crônica, sexta-feira, 14 de abril), mas em algum outro país é provável que sim.

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Assusta um pouco tanta notícia, tanta agitação, tanta correnteza. Contudo, não podemos deixar de experimentar igualmente certa empolgação. A verdade é que este presente deixa adivinhar um futuro melhor. Amanhã ainda haverá políticos corruptos ? sinto dizer. Mas serão menos do que hoje, estarão menos protegidos e viverão com medo.

Não me conformarei nunca com a ideia de não ter existido desde sempre. Contudo, se, durante o tempo que me resta, puder testemunhar o fim da grande corrupção, a nível global, já me darei por feliz.

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