BERLIM ? Os alemães acompanham curiosos as notícias da operação Lava-Jato e alguns analistas chegam a comparar o caso com o maior escândalo da Alemanha desde a Segunda Guerra Mundial, as doações ilegais da era do ex-chanceler Helmut Kohl.

Para o cientista político Peter Grottian, da Universidade Livre de Berlim, porém, a Lava-Jato é muito mais grave, porque no escândalo estaria envolvida ?quase toda a classe política e empresarial?.

Ainda de acordo com o analista berlinense, a sociedade brasileira deveria aumentar a pressão para que o episódio seja inteiramente esclarecido, o que não aconteceu no caso Kohl. Ele afirmou ainda que a Lava-Jato pode motivar a adoção de leis de doações partidárias e controles mais rigorosos, como aconteceu na Alemanha.

? Mas nenhuma lei garante 100% o fim das doações ilegais, porque a pressão dos lobistas é grande ? diz Grottian.

CASO ALEMÃO

Dezoito anos depois, o maior escândalo de corrupção da Alemanha não foi ainda inteiramente esclarecido porque o principal envolvido, o ex-chanceler federal Helmut Kohl (1983-1998), recusa-se a revelar detalhes da origem dos milhões de marcos (a moeda alemã da época) que enchiam as caixas pretas do seu partido, a União Democrata Cristã (CDU).

Apesar disso, o ?chanceler da reunificação alemã?, por várias vezes indicado para o Prêmio Nobel da Paz, não foi preso. Kohl conseguiu fechar um acordo com a promotoria de Bonn, a antiga capital alemã, para que o caso fosse arquivado mediante o pagamento de quantia equivalente a 350 mil euros.

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Antes disso, em dezembro de 1999, Kohl tinha selado a sua queda moral ao confirmar o recebimento de doações ilegais.

? Eu recebi doações que não foram mencionadas porque os doadores pediram.

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E eu não tenho a intenção de revelar os seus nomes porque dei a minha palavra ? conta Kohl

Para Peter Grottian, o caso das doações causou constrangimento em toda a Alemanha, mas não havia nenhum interesse em colocar o herói da reunificação alemã na cadeia.

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O escândalo acabou tendo um efeito parcialmente positivo, com a criação de uma nova lei das doações partidárias, que obriga os partidos a divulgar doações acima de 10 mil euros e prevê também uma prestação de contas com o presidente do Parlamento sobre doações acima de 50 mil euros.

? As empresas e os lobistas sempre encontram um meio de fazer doações ilegais, seja dividindo a quantia em partes ou usando o nome de várias pessoas ? pondera Grottian.

Também na Alemanha houve corrupção e transporte de malas pretas com milhões.

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Mas assim mesmo Peter Grottian não vê muito em comum entre o escândalo da era Kohl e a Lava-Jato.

? O que aconteceu na Alemanha foi terrível, abalou a confiança do país no maior partido, a CDU, mas o caso do Brasil é muito pior porque envolve uma camada muito mais ampla da classe política e empresarial ? compara Grottian.

Para o analista, só será possível um processamento completo do caso brasileiro se a sociedade aumentar a pressão para o esclarecimento e houver uma comissão 100% independente que investigue todos os envolvidos.

Ele lembra, por outro lado, que é necessário regulamentar o financiamento dos partidos, como forma de evitar que eles dependam de doações.

Na Alemanha, todos os partidos representados nos parlamentos estaduais e no federal têm direito à ajuda do Estado (lei do financiamento dos partidos), que é calculada de acordo com o número de votos recebidos.

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Doações acima de 50 mil euros recebidas pelo partido são calculadas como parte dessa ajuda.

SOLUÇÃO DIFÍCIL

De acordo com o jornal ?Die Welt?, a nova lei não influenciou, porém, na redução das doações.

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Em 2014, os partidos alemães receberam 61,7 milhões de euros em doações, verba que foi ainda acrescida pelo dinheiro recebido do Estado, de acordo com a lei de financiamento dos partidos.

Na Alemanha, o caso das doações ilegais terminou tornando-se uma tragédia pessoal para o político que havia entrado para a História como o governante que conseguiu reunificar a Alemanha.

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Menos de dois anos depois de o escândalo estourar, Hanelore Kohl, a esposa de Helmut Kohl, suicidou-se, abalada por uma misteriosa alergia à luz (do dia e elétrica).

Pouco antes disso, Angela Merkel deu um ?putsch?, rompendo com o seu antigo chefe, Helmut Kohl, e tomando a chefia do partido de Wolfgang Schäuble, hoje ministro das Finanças.

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Ele também tinha recebido uma grande quantia de um dos financiadores de Kohl, o comerciante de armamentos Karl Heinz Schreiber.

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? Sem o caso Kohl, Merkel nunca teria conseguido chegar onde chegou ? conclui Grottian.

No Brasil, as suspeitas que pesam sobre as principais lideranças políticas devem abrir espaço para candidatos não tradicionais nas eleições do ano que vem.

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Enquanto isso, deputados e senadores correm para tentar aprovar a tempo mudanças no financiamento de campanha, aumentando a parcela de recursos públicos.

(*Especial para O Globo)

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