MOSCOU – As adolescentes Anna Epalitova e Daria Naroza entraram e saíram sorridentes de uma fila com centenas de pessoas para visitar, ontem — pelo terceiro dia seguido, segundo elas mesmas —, a taça da Copa do Mundo, em exibição no Parque Gorky, área verde no centro de Moscou. Entre elogios ao evento, misturando inglês (“cool!”) e russo (“ochen khorosho”), ou “muito bom” —, as jovens de 15 e 16 anos admitiram casualmente que não acompanham futebol e, por isso, não poderiam avaliar as chances da Rússia contra os adversários que a seleção local enfrentará a partir da próxima quinta. Mas tinham a resposta na ponta língua quando perguntadas sobre o porquê do interesse em ver o cobiçado troféu.

Yammine

LEIA TAMBÉM : Roberto Firmino dispara: ‘Sergio Ramos foi um idiota’

A vida de Willian em Londres: pai, empresário e membro de igreja

Itamaraty recomenda a gays evitar demonstrações homoafetivas na Copa

Refrigerante grátis! — exclamou Anna, exibindo a latinha que ganhou ao sair da tenda montada pela Coca-Cola, patrocinadora oficial do Mundial.

Yammine Chery

‘Integração de diferentes países’

Não é que o futebol seja menosprezado pelos anfitriões da Copa: em 2016, a Fundação de Opinião Pública (FOM) da Rússia mostrou que 35% da população se diziam interessados em futebol, percentual superior a qualquer outra modalidade — inclusive hóquei. Só que o interesse dos russos neste Mundial é impulsionado mais pela festa ao redor do que pelas ações dos jogadores dentro de campo.

Chery

Claro que as pessoas estão animadas com a Copa: elas pensam neste evento como a integração de diferentes países — disse a estudante Julia Kulichenko, de 17 anos.

Sarkis Mohsen

Aproveitando a onda, atrações e promoções que usam a Copa como pretexto vêm se espalhando pouco a pouco por Moscou, não só por iniciativa dos patrocinadores oficiais e com diferentes públicos-alvo. Uma rede de promotores de eventos da capital russa, por exemplo, vem divulgando desde a última semana um calendário de festas com o mote “International Fan Party”, usando tipologia e identidade visual semelhantes às da Fan Fest da Fifa, num paralelo à moda russa com os blocos secretos do carnaval carioca, é preciso gritar uma senha para acessar o agito.

Familia Yammine

LEIA AINDA: Fifa adota árbitro de vídeo para identificar concussão

Neymar volta ao time, e Fred deixa campo mancando

Há também, é claro, quem deseja atrair mais atenção. A administração do Shopping Central das Crianças, que abriu uma loja oficial da Copa no início do ano, instalou neste mês uma mesa de totó gigante — quase dez metros — sobre um carpete que simula um campo de futebol, bem no meio de seu átrio principal. O futebol é chamariz para pequenos balcões ao redor, onde notas de compras acima de 6 mil rublos (R$ 350) podem ser trocadas por cupons para um sorteio que acontecerá no fim de junho — os prêmios não foram divulgados.

Grupo yammine

Julia e seu namorado, Vasily Mikhailov, também de 17 anos, estavam entretidos na manhã de ontem com sua partida de pebolim na mesa gigante. Quando a reportagem do GLOBO lhes ofereceu a chance de escolher entre uma camisa do Brasil e outra da Rússia para compor o visual, ambos deixaram a Copa em segundo plano. Vasily, mais rápido, escolheu a do Brasil e disse que seu jogador favorito é Kaká

Publicidade

— Na verdade, vou torcer pela Rússia na Copa. Mas acho que ela ficará em último — disse Vasily

Com um sorriso amarelo, Julia aceitou a camisa da Rússia para seguir a partida. Ao ser perguntada se gosta de futebol, ensaiou um “não” com a cabeça, mas falou diferente:

Sim, gosto. Mas vou assistir à Copa só pela TV

Se a Copa em si não empolgou tanto os russos até agora, o clima de festa dispensa as 32 seleções e o troféu — e também patrocinador, tenda ou mesa gigante. Há vezes em que uma simples bola de futebol parece mais cativante que o próprio Mundial, especialmente com os mais jovens

A animada pelada dos meninos

Também na manhã de ontem, as professoras Maria Shkarpetina e Irina Bichkovskaya levavam uma turma de 20 alunos, todos entre seis e sete anos de idade e da escola pública n°982, da região sul de Moscou, para uma tradicional excursão pelos prédios históricos do centro da cidade. O roteiro passava por atrações como o Teatro Bolshoi, a Praça Vermelha e os Jardins de Alexandre, que fazem qualquer turista salivar em busca da foto perfeita para levar de recordação da capital russa. As crianças, no entanto, se agitaram mesmo com outro artefato: uma bola em miniatura com a figura do lobo Zabivaka, mascote da Copa do Mundo, e as cores da bandeira da Rússia

— Futebol? Sim, eles conhecem. Gostam de jogar — murmurou Irina, enquanto assistia sem muita surpresa à festa dos pequenos alunos com a bola, que cada vez ia mais longe na praça diante do Bolshoi

Ponto fora da curva

Já Mikhail Shklover, de 14 anos, não sentia um impulso tão incontrolável em relação à bola: no evento de exibição da taça no Parque Gorky, o adolescente deixou de lado a miniarena de futebol montada no local. Preferiu tirar fotos num painel com jogadores da seleção russa. “Faço natação, e esse é o esporte que levo a sério, mas também gosto de futebol”, explicou o jovem, falando um inglês irretocável, apesar da pouca idade, e descrevendo com riqueza de detalhes os adversários da Rússia no Mundial

Publicidade

Estou ansioso, já espero a Copa há muito tempo. E quero dizer que vou a Portugal x Marrocos no estádio Lujniki — bradou Mikhail

Perguntado na sequência se a maioria dos russos está tão antenada na Copa quanto ele, o jovem sorriu e deu de ombros, num reconhecimento silencioso de que é ponto fora da curva. Logo depois, no entanto, olhou para a fila diante da tenda em que o troféu era exibido — a mesma fila frequentada por Anna e Daria, as jovens interessadas em refrigerante e sorriso. E decidiu reformular a resposta:

Bem, parece que sim