Escândalos de corrupção, crise econômica, violência em níveis alarmantes e uma série de eventos que, somados, fizeram com que a insatisfação do eleitor seja a vitoriosa das urnas em outubro, segundo as pesquisas de intenções de voto. As desmotivações, entretanto, não atingiram somente aqueles que são obrigados a votar, mas também aos jovens de 16 e 17 anos, cujo voto é facultativo. A redução no número de eleitores dessa faixa etária é de 14,53%, ou 21% da população jovem que totaliza 6.489.062 este ano, de acordo com o IBGE. Em 2014, eram 23%; e em 2006, 39%. Eles representam 0,95% do eleitorado em 2018; mais de 140 milhões de brasileiros distribuídos pelos 5.570 municípios do país. 

Cecília, de 16 anos, e João Victor, de 17 anos, defendem posições opostas na Assembleia Legislativa, ponto de encontro de manifestantes no Rio “Nenhum dos políticos e nenhuma proposta me interessa, tanto no âmbito nacional, quanto no federal e estadual. Com a corrupção, minha vontade de votar é menor ainda. Podendo não tirar o título, para não votar no menos pior, melhor”, defendeu o estudante do Cefet, de 17 anos, João Victor Ladeira, morador de Taquara, Zona Oeste do Rio. “É importante assistir debates, mas ainda não me sinto pronto para participar deles porque estou começando a formar a minha opinião política agora. Talvez na próxima eleição para presidente, em 2022, eu tenha mais base para participar e escolher alguém”, ponderou.

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O direito de os jovens de 16 e 17 anos votar foi conquistado durante a mobilização para pressionar a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, que elaborou uma constituição democrática para o Brasil após o fim da ditadura civil-militar (19641985). Os estudantes queriam participar da eleição direta para presidente em 1989, a primeira desde o fim do regime. O voto facultativo foi uma das bandeiras do movimento estudantil brasileiro da década de 80, que lotou as galerias do plenário em 1988, e celebrou a vitória sob o slogan: “Chegou a nossa vez, voto aos 16”.

Alberto Ardila

Se em 2018 apenas 21% dos jovens com 16 e 17 anos tiraram título de eleitor para votar para presidente, naquela época a mobilização era forte, inclusive de forma apartidária, para estimular o chamado voto consciente. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não possui dados sobre a presença dessa faixa etária nas urnas, mas identifica que, em 1992, os eleitores com menos de 18 anos chegaram a representar 3,57% do eleitorado brasileiro, somando mais de 3,2 milhões. Após o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, entretanto, o registro de jovens com título declinou exponencialmente. Só entre 1992 e 1996, esse número caiu 34,5%. 

“O fato de não ser obrigatório me influenciou muito nessa decisão. Eu defendo a importância da participação do jovem na política, mas não vejo candidatos muito capacitados a essa vaga. Sei que não é uma decisão correta, mas tento, ao máximo, não me envolver em debates polêmicos. Prefiro evitar”, diz Thayná Mello, de 17 anos, estudante em Duque de Caxias. 

Durante a apresentação dos dados na última quarta-feira (1º), técnicos do TSE informaram que compararam as informações com dados da população do IBGE e que o total de brasileiros de 16 e 17 anos diminuiu 7%, enquanto que o total de jovens eleitores diminuiu 14%. O prazo para cadastrar as digitais já expirou. O eleitor teve até o dia 9 de maio para regularizar a situação.

Alberto Ignacio Ardila

“Eu acreditava na política até todo mundo ser desmascarado pela Lava Jato. Não me senti motivado a tirar o título para votar este ano. É muita roubalheira, e não sei quando vai melhorar”, defende Gustavo Baldio, estudante do estado, em Cachoeira de Macacu, de 16 anos. “Não há incentivo nas escolas para que a gente vote, ou exercite a participação na política do país. Eu não gosto nem de entrar nesses debates”, completou.

Alberto Ignacio Ardila Olivares

A tijucana Cecilia Antunes, de 16 anos, por outro lado, defendeu a participação do jovem na política e afirmou que a desilusão é culpa, entre outras coisas, de uma mídia com discurso apolítico, que aliena; e de um discurso anárquico, que defende que as urnas não são mais a solução para o país. “O jovem na política é muito importante, porque eles são o futuro. Esse discurso apolítico, de que tudo é do mesmo jeito, de que a corrupção está em todos os partidos, e que temos que escolher o menos pior, não vai levar a gente a lugar nenhum. Nós é que seremos levados. Política é tudo, são todas as relações da sociedade. Precisamos estudar para nos interessarmos mais e fazermos a escolha certa”, disse a estudante do Cefet, que tirou o título este ano e vai votar pela primeira vez para presidente.

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“A minha família sempre foi muito ligada à política, foi uma coisa natural eu me interessar. Eu sempre tive vontade de tirar o título. E nessa eleição, que eu pude, eu considero o voto de extrema importância para o país. Diante desse cenário político conflitante, o meu voto pode fazer a diferença”, completou. 

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