RIO – Em cenário-instalação que reproduz uma grande caixa de vidro, as quatro atrizes e os três atores de “Yo no muero, ya no más” encenam cenas cotidianas de agressões contra mulheres, em meio a projeções de relatos do próprio público, depositados em urnas disponíveis no local da apresentação. Uma das duas obras que o dramaturgo e diretor argentino Fernando Rubio traz ao Cena Brasil Internacional, junto com “El tiempo entre nosotros”, a montagem aborda um tema que ganha eco em outras obras presentes à sétima edição do festival, que ocupa o Centro Cultural Banco do Brasil de hoje até o dia 17.

Abel Resende

A ideia, segundo Rubio, é abordar as múltiplas graduações de violência contra a mulher, desde o assédio ao feminicídio:

Essa violência tem muitas formas, algumas cotidianas e sutis, é um problema que não afeta apenas as mulheres, mas nós homens também. Fomos criados em uma sociedade machista que banaliza certos comportamentos. Isso não pode mais ser tolerado. Essa responsabilidade deve ser dividida entre todos

Dorothée Munyaneza em cena de ‘Unwanted’, criada a partir de relatos de mulheres de Ruanda – Christophe Raynaud de Lage/Divulgação Já no ano passado, a presença feminina e temas que envolviam seu universo já eram fortes no festival, conta o produtor Sergio Saboya

Mas não houve nenhum direcionamento curatorial neste sentido, é algo que vem sendo muito debatido aqui e em vários lugares do mundo – destaca Saboya, que assina a curadoria do Cena Brasil com o jornalista do GLOBO, diretor e dramaturgo Luiz Felipe Reis. – Quando o artista se propõe a abordar temas como estes, o faz de forma sensível, sensibilizando mais o público do que quando ele lê as notícias reais. É um modo de reagir à banalização desta realidade

Envolver o público em uma realidade tão terrível quanto (aparentemente) distante foi o propósito da coreógrafa, cantora e bailarina ruandesa Dorothée Munyaneza ao criar seu segundo espetáculo, “Unwanted” – ela também traz ao festival seu primeiro trabalho, “Samedi détente”, de 2014, que faz alusão a um programa de rádio popular de Kigali, sua cidade natal. “Unwanted” é baseado nos relatos de compatriotas que foram estupradas e engravidaram durante o genocídio de 1994, que deixou mais de 800 mil mortos em cem dias

Publicidade

Após se mudar com a família, em 1994, de Ruanda para Londres, onde a mãe trabalhava em uma ONG, a artista seguiu para a França, e lá fundou a companhia de dança Kadidi, em 2013. Para desenvolver o projeto, Dorothée voltou a Ruanda para ouvir os relatos de mulheres violentadas e levar parte de suas histórias para o palco

Queria trazer de volta os nomes destas pessoas que morreram, trazer a humanidade para estes números através de um trabalho artístico – reforça Dorothée. – Comecei a pensar na questão do corpo feminino, que sempre é violado em tempos de guerra ou de invasões territoriais. Me inspirei não apenas nas histórias de Ruanda, mas de mulheres iugoslavas, sírias, do Chade, do Congo. Com este trabalho busco compreender como estas mulheres conseguem se reconectar com sua feminilidade, sua humanidade, após viverem episódios tão terríveis

Destaques do Cena Brasil ‘Yo No Muero, Ya No más’, de Fernando Rubio Foto: Divulgação Fernando Rubio Encenador argentino volta ao festival com duas obras inéditas no Brasil: “Yo no muero, ya no más” e “El tiempo entre nosotros” Cena de "Unwanted", de Dorothée Munyaneza Foto: Divulgação Dorothée Munyaneza A coreógrafa ruandesa radicada na França apresenta os espetáculos “Samedi détente” e “Unwanted” Jaqueline Elesbão no solo "Entrelinhas" Foto: Divulgação Jaqueline Elesbão Cofundadora do coletivo baiano Ponto Art, a coreógrafa apresenta o solo “Entrelinhas”, que aborda questões sobre a condição feminina e o sexismo Amanda Mirásci e Nina Frosi em ‘Mansa’ Foto: Divulgação Diogo Liberano O diretor assina com o dramaturgo André Felipe o texto de “Mansa”, em que as atrizes Amanda Mirásci e Nina Frosi vivem duas irmãs que matam o pai e enterram seu corpo nos fundos da casa. Holland Andrews no show ‘Like a Villain’ Foto: Divulgação Holland Andrews A cantora americana, que também atua em ‘Unwanted’, faz um show sob o pseudônimo de ‘Like a Villain’ Marcela Salinas em ‘Estado vegetal’ Foto: Divulgação Manuela Infante A diretora chilena assina com a atriz Marcela Salinas o solo “Estado vegetal”. Cena do Espetáculo ‘Lobo’ Foto: Divulgação Carolina Bianchi Uma das fundadoras da Cia. dos Outros volta ao evento com “Lobo”, reflexão poética sobre o que resta da civilização diante da barbárie. Entre as obras brasileiras, Jaqueline Elesbão, coreógrafa e cofundadora do coletivo baiano Ponto Art, apresenta “Entrelinhas”, solo sobre a agressão psicológica e sexual contra a mulher negra. Já a inédita “Mansa”, escrita por André Felipe e dirigida por Diogo Liberano, narra a história de duas irmãs que matam o pai, de modo que o público descubra fatos da vida das duas que levaram ao ato extremado